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Educação, autoridade e responsabilidade na escola cristã
A educação se estabelece sempre dentro de uma ordem moral e social concreta. Onde há ensino, há autoridade. Onde há autoridade, há responsabilidade. Onde há responsabilidade, há prestação de contas. A Escritura não trata esses elementos como construções humanas arbitrárias, mas como aspectos da própria estrutura criada e governada por Deus.
Do ponto de vista bíblico, a educação está diretamente relacionada ao governo de Deus sobre o seu povo. Textos como Deuteronômio 6 e Provérbios 1 não tratam o ensino como atividade técnica, mas como transmissão fiel da verdade no contexto da aliança, envolvendo palavra, exemplo, disciplina e continuidade histórica. A ruptura entre ensino e temor do Senhor não produz neutralidade, mas desorientação.
Ao discorrer sobre a providência divina, João Calvino afirma que Deus sustenta o mundo por meio de uma ordem contínua, na qual os seres humanos são chamados a agir como administradores responsáveis, e não como agentes autônomos. A formação humana, portanto, acontece dentro dessa ordem e não à margem dela. Quando o ensino se afasta dessa consciência, perde-se o critério que orienta decisões, limites e finalidades.
Essa compreensão encontra aprofundamento em Herman Bavinck, ao afirmar que a formação humana envolve a totalidade da pessoa e se desenvolve ao longo do tempo por meio de práticas estáveis e socialmente reconhecidas. Quando a educação se fragmenta, separando conhecimento, ética e finalidade, o resultado é a formação de indivíduos tecnicamente capazes, mas moralmente desorientados.
No campo pedagógico, Cornelius Van Til insiste que todo processo educativo opera a partir de pressupostos últimos. Currículo, método e avaliação nunca são neutros. Eles expressam compromissos prévios com determinada visão de verdade e de ser humano. Negar esses pressupostos não os elimina, apenas os torna invisíveis e, por isso, mais difíceis de discernir e corrigir.
Sob a lente sociológica, Abraham Kuyper reconhece que a sociedade se organiza por esferas distintas, cada uma com responsabilidades próprias diante de Deus. A escola ocupa um lugar específico nesse arranjo. Ela não substitui a família nem a igreja, mas exerce uma função pública essencial na formação intelectual e moral. Quando essa função é diluída ou absorvida por pressões ideológicas externas, a instituição escolar perde sua estabilidade e sua legitimidade.
Essa realidade tem implicações diretas para a gestão escolar. Administrar uma escola envolve decisões que ultrapassam eficiência operacional. Gestão educacional é exercício de autoridade delegada. Inclui organização do tempo, definição de critérios, estabelecimento de limites e preservação de coerência institucional. Onde essas dimensões são tratadas como obstáculos, instala-se a instabilidade. Onde são assumidas com responsabilidade, constrói-se continuidade.
A Confissão de Fé de Westminster afirma que Deus governa todas as coisas segundo o conselho da sua vontade, fazendo uso de meios legítimos. Essa afirmação desloca a educação do campo do improviso para o campo da mordomia. Ensinar e administrar não são atos de soberania, mas de fidelidade àquilo que foi confiado.
Educar, nesse horizonte, é submeter palavra, prática, estrutura e autoridade à verdade de Deus, reconhecendo que a formação humana é sempre pública, ordenada e responsável. Onde isso é abandonado, resta apenas adaptação às pressões do tempo. Onde isso é preservado, constrói-se formação com estabilidade, discernimento e temor do Senhor.
“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é entendimento.”
Provérbios 9:10
A tarefa do coordenador e do diretor escolar é uma responsabilidade pública diante de Deus e da comunidade que lhe foi confiada. Liderar uma escola envolve discernir prioridades, estabelecer limites, sustentar critérios e preservar a coerência entre aquilo que se ensina, aquilo que se pratica e aquilo que se governa.
A autoridade escolar não existe para reagir às pressões do tempo, mas para ordenar o trabalho pedagógico segundo princípios estáveis. Cabe à liderança garantir que o currículo não seja fragmentado, que a formação não seja reduzida a desempenho técnico e que a gestão não se torne refém de modismos ou urgências passageiras.
Isso exige decisões claras. Exige dizer não quando necessário, sustentar processos formativos de longo prazo e proteger a identidade institucional da escola. Exige compreender que cada escolha administrativa comunica uma visão de ser humano, de sociedade e de futuro.
Dirigir uma escola é assumir responsabilidade concreta sobre tempo, pessoas, conhecimento e ordem. Quando essa responsabilidade é exercida com temor do Senhor, a escola se torna um espaço de formação consistente, intelectualmente rigorosa e moralmente estável. Quando é relativizada, perde-se não apenas eficiência, mas direção.
A liderança educacional fiel não busca aplauso imediato, mas permanência. Não se orienta pela instabilidade do presente, mas pela responsabilidade diante da verdade. É nesse horizonte que coordenadores e diretores são chamados a atuar, governando bem aquilo que lhes foi confiado.
Equipe ANEP - Associação Nacional de Escolas Presbiterianas